Ontem fui a um seminário na escola da minha filha intitulado "Os meninos precisam mesmo lutar?", ministrado por uma mestra em educação Waldorf, uma senhora dinamarquesa chamada Helle Heckmann. "A atividade humana passou por grandes transformações ao longo dos séculos", explicou ela, "e o trabalho físico e a atividade com as mãos foram sendo perdidos. Ninguém hoje sova o próprio pão, corta a própria lenha para o fogão, cultiva o próprio grão, caça o próprio animal. Mas isso sempre fez parte do propósito humano e da experiência de satisfação pessoal das pessoas. As crianças cresciam felizes ao ajudar a família com as atividades de subsistência, exercitando-se, aprendendo, e respirando ar puro no processo". Ela acredita que os homens têm dentro de si um senso de propósito relacionado ao trabalho físico e de transformação do ambiente - o "arquétipo masculino": aquele que anda pela floresta carregando um monte de lenha pesada num ombro e um par de lebres no outro.
Ela é dona de uma escolinha Waldorf na Dinamarca, e nos contou várias histórias relacionadas ao comportamento dos meninos mudando quando ela, depois de anos trabalhando apenas com funcionárias do sexo feminino, contratou um professor homem. "Os meninos passaram a finalmente querer aprender a cortar a lenha para nosso aquecedor quando viram o Enzo, suado, com o machado na mão - mesmo havendo visto durante anos as professoras mulheres fazendo a mesma atividade".
Aprendendo com os exemplos. Um dos pais presentes na palestra ilustrou esse conceito contando que só consegue fazer o filho pré-adolescente "falar" com ele, no sentido de se abrir mesmo, quando pai e filho estão tomando parte em alguma atividade física juntos. Também presente estava um casal lésbico, mães de um menino, que levantou a importante questão: "Mas e quando não há pai em casa?". A dona Heckmann sugeriu que não é necessário haver um membro do sexo masculino na casa - "contanto que você ofereça atividades de teor físico para fazer junto com seu filho: carregar coisas, mover coisas, ou mesmo um cooper pelo parque". Eba! Finalmente terei um ajudante (querendo ele ou não, mwahahaha) para aqueles pesados cestos de roupa, já que tenho que descer e subir 2 andares até minha máquina de lavar roupa!
Mas e o brincar de luta? Concluiu-se que isso vem justamente desse vazio que ficou depois que as sociedades humanas foram perdendo as atividades de subsistência, o "fazer" com as mãos e o corpo, juntamente com influências da mídia - os meninos ficaram desnorteados e sem "propósito", sem maneiras de canalizar sua energia física.

Depois todo mundo começou a debater sobre revólver de brinquedo e se tudo bem ou não brincar com esse tipo de brinquedo. Na pedagogia Waldorf, o brincar com armas de brinquedo é permitido, porém com armas do tipo arco e flecha, espada e escudo de madeira, estilingue, etc. Uma mãe retrucou, "mas esses brinquedos todos machucam de verdade, e um revólver de brinquedo não, por isso é bem melhor!", no que um pai respondeu - e veja que eu nem tinha pensado nisso antes - que a idéia é isso mesmo: com armas que machucam mesmo, a criança aprende a exercitar a empatia para com o outro já que sabe o quanto dói levar uma cacetada de espadinha de madeira na cabeça, e aprende a brincar com cuidado e respeito. O revólver, pelo contrário, oferece uma brincadeira impessoal, inconsequente, e abstrata, e que obviamente não ensina o real impacto de manipular uma arma de fogo. Além disso, o revólver, ao contrário das medievais espadas e arco-e-flecha, carrega uma carga e um histórico social atual bastante negativo, e que, nesse sentido, os pais que não permitem aos filhos "brincar" com essa idéia triste têm razão. Sei que algumas de vocês mamis por aí permitem aos filhos brincar de revólver, mas aqui nos Estados Unidos a arma de fogo é comum tanto quanto são comuns as notícias de crianças loucas entrando na escola e matando um monte de gente. Isso é uma ferida aberta por aqui, e as mães e pais têm algumas reservas.
Enfim. E vocês? Como canalizam a energia física dos seus meninos?
Deixam que brinquem de atirar nas pessoas?









